sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Cristo aos pedaços


Não querem Jesus, querem a parte suave de Jesus. Não querem o Cristo, querem a parte agradável do Cristo. Não querem a cruz, querem a parte menos dolorosa da cruz. Não querem o manto, querem a parte mais bonita daquele manto. Não querem a Bíblia, querem parte dela: a que prova que estão certos. Assim agem muitos cristãos. Assim talvez nós ajamos.


Alguns cristãos continuam querendo o melhor lado do trono, o primeiro lugar, lugar de vencedor, o melhor lugar à mesa do Senhor, o lugar mais visível do púlpito e do altar, o melhor som e os melhores holofotes, a melhor divulgação mesmo que o seu produto não seja lá tão eclesial alguma badalada a mais do sino que toca para a sua chegada uns segundos a mais de aplausos, ou algum balanço a mais do turíbulo. O perigo ronda a todos nós que lidamos com a mídia e com a multidão.

E há quem, como Simão o Mago, (At 8,9-24) faz qualquer coisa para ser chamado de apóstolo ou de profeta. Paga o seu caminho pela mídia, sabendo que, se não o fizer, ninguém o chamará.  Então ele se chama e se projeta.

Se não tomarmos cuidado, aparecer em nome da religião poderá tornar-se, sem que nos demos conta, obsessão e doença: acabamos comendo, bebendo e dormindo publicidade em nome da fé. E pensamos que é virtude. Pode parecer zelo, mas não é.

Há um ponto em que o anúncio da fé, que até então era coisa de missionário desapegado, se transforma em coisa de fanático ou em alta fonte de lucro. Depende do conteúdo, da obsessão e da ênfase que dá ao que anuncia. É tentação corrente em todas as igrejas. Ate que ponto se pode cobrar pela Palavra? Pode o empresário cobrar duas vezes mais do que o pregador? Até que ponto se pode arrecadar e quanto a arrecadação é demais?

Quando o pregador começa a falar sempre na primeira pessoa e deixa claro que não ouvirá a ninguém mais senão a Deus, estamos diante não de um santo, mas de um obcecado. Não consegue mais anunciar o Cristo sem, primeiro, se anunciar longamente. Quando gosta muito de falar de si mesmo, de contar suas histórias pessoais e de dizer que Jesus lhe disse ou está lhe dizendo alguma coisa convém que os amigos o alertem, se é que ele ainda ouve algum amigo.

Serve para mim, para os outros, serve para nós que subimos ao púlpito. Se insistimos em ficar apenas com a parte que nos interessa, nossa Bíblia encolherá, porque o cérebro já de há muito que encolheu!.

Enquanto não entendermos que aquele livro também fala contra nós não o teremos entendido. Jesus deixa claro que cobrará mais de quem diz que sabe mais sobre Ele! (Mc 12,40) ( Mt 24,24-26) Não merecem confiança. Disse que não reconhecerá quem na terra contou vantagem e fingiu ser seu confidente e quem serviu-se do seu nome ao invés de servir o seu nome. (MT 24,5) ( Mt 7,15-23)

Procura-se urgentemente uma ascese e uma sólida teologia da comunicação! Deveria ser matéria obrigatória em todos os seminários e cursos de catequese!


Fonte: Edições Paulinas

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